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Nesta entrevista exclusiva do Prof. Dr. Caio Cesar Silva de Castro, MD, PhD, à coordenadora de Comunicação da Psoríase Brasil, Ana Paula Dixon, o especialista abordou a falta de tratamento aos pacientes com vitiligo no Brasil. Não há políticas públicas para a doença no país, ficando os pacientes desassistidos nos setores público e privado

Com mais de 33 anos de carreira dedicados à assistência, pesquisa clínica e formação de profissionais em dermatologia, sendo 28 anos de experiência em fototerapia, o Prof. Dr. Caio Cesar Silva de Castro é dermatologista integrante do Conselho Científico da Psoríase Brasil. Professor-associado de Dermatologia da PUCPR e chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná. Integra o Medical Advisory Board da Global Vitiligo Foundation e já publicou mais de 60 artigos científicos sobre a doença em periódicos internacionais de referência.

Apesar dos avanços mundiais — como o ruxolitinibe em creme (Opzelura), aprovado pela Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, e pela European Medicines Agency (EMA) para repigmentação na forma não-segmentar do vitiligo — o Brasil ainda não dispõe de nenhum medicamento registrado na Anvisa especificamente para vitiligo (o ruxolitinibe aprovado no país é indicado apenas para outras patologias) nem possui Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) que oriente o tratamento no SUS.

Essa combinação de ausência regulatória e terapêutica coloca o vitiligo numa zona de negligência. Nessa conversa, o Dr. Caio de Castro analisa os obstáculos que mantêm o país à margem das inovações e apresenta caminhos para garantir aos pacientes brasileiros acesso digno e atualizado ao cuidado.

  1. O que é o vitiligo e como ele afeta física e emocionalmente os pacientes?
    Vitiligo é uma doença genética autoimune em que o sistema imunológico ataca erroneamente os melanócitos — células responsáveis pela produção de melanina, o pigmento que dá cor à pele. Ao destruí-los, a pele perde a pigmentação em áreas específicas, tornando o paciente mais vulnerável a queimaduras solares, envelhecimento precoce e possivelmente ao câncer de pele. No entanto, o impacto mais profundo costuma ser emocional: pacientes frequentemente enfrentam estigmas, exclusão social e uma significativa perda na qualidade de vida.
  1. Quantas pessoas vivem com vitiligo no Brasil?
    Aproximadamente 0,5% da população brasileira convive com a doença.
  2. Quais são os principais desafios enfrentados por esses pacientes no Brasil?
    Um dos maiores entraves é o acesso à fototerapia, considerada o tratamento de base mais eficaz para o vitiligo. Há um número insuficiente de máquinas, tanto no sistema privado quanto no SUS. O tratamento exige deslocamentos frequentes — duas a três vezes por semana, por ao menos 35 sessões anuais — o que o torna financeiramente e logisticamente inviável para muitos.
  3. Quais tratamentos estão disponíveis atualmente no Brasil?
    O Brasil conta com quase todas as opções terapêuticas utilizadas globalmente: fototerapia, imunossupressores tópicos e terapias combinadas. No entanto, o país ainda não incorporou o ruxolitinibe em creme (nome comercial Opzelura), primeira e única medicação aprovada nos EUA e Europa especificamente para o tratamento do vitiligo.
  4. O que há de inovador em nível internacional e por que isso ainda não chegou ao Brasil?
    Além do ruxolitinibe, estudos em andamento nos EUA e Europa investigam medicamentos orais e injetáveis como o ritlecitinibe e o upadacitinibe, ambos com resultados promissores. Infelizmente, o Brasil perdeu a oportunidade de sediar estudos clínicos com essas drogas, o que poderia ter acelerado sua liberação local e beneficiado pacientes diretamente.
  5. Por que o ruxolitinibe ainda não foi incorporado no Brasil?
    Ainda não há aprovação da Anvisa, tampouco pedido de incorporação pela CONITEC – Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde. A Incyte Corporation, que tem medicamento já aprovado, ainda não trouxe o medicamento para o Brasil. Pressão das associações de pacientes, sociedades médicas e articulação política podem contribuir para acelerar esse processo.
  6. Há ensaios clínicos com esses medicamentos em curso no Brasil?
    Até o momento, não há informações públicas sobre estudos clínicos em andamento com essas moléculas no país. Isso representa uma perda de oportunidade para a comunidade científica e para os pacientes brasileiros.
  7. Como o Sistema Único de Saúde (SUS) poderia se preparar para oferecer terapias modernas para o vitiligo?
    A expansão do número de unidades de fototerapia no SUS seria um primeiro passo essencial. Além disso, a capacitação de profissionais e o interesse da rede privada em adquirir equipamentos e treinar equipes poderiam ser estimulados com a chegada de novas terapias. Médicos teriam mais recursos para oferecer aos pacientes, promovendo melhores resultados.
  8. O vitiligo pode ser considerado uma doença negligenciada no Brasil?
    Sim. A falta de políticas públicas, escassez de serviços especializados e a ausência de medicamentos inovadores tornam o vitiligo uma condição negligenciada. Ainda há um déficit de visibilidade e de mobilização em torno da causa.
  9. Como associações de pacientes e a sociedade civil podem atuar para mudar esse cenário?
    É fundamental que associações e entidades médicas intensifiquem a articulação com laboratórios, solicitando informações sobre a ausência de estudos no Brasil e exigindo mais transparência. Também é necessário pressionar a Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – e a Conitec para priorizarem a análise e incorporação de novos tratamentos. Campanhas de sensibilização pública também são importantes para mobilizar a opinião pública e o poder legislativo.
  10. Qual é o impacto psicológico de viver com vitiligo sem acesso a tratamentos eficazes?
    O sofrimento é profundo. Saber que existe um tratamento eficaz em outros países, mas que não está disponível no Brasil, agrava a sensação de abandono. Muitos pacientes não têm como custear o medicamento fora — um tubo de ruxolitinibe custa cerca de mil euros, e o tratamento dura ao menos seis meses. É uma frustração constante.
  11. O que pode ser feito, a curto e médio prazo, para melhorar a situação do tratamento no país?
    A curto prazo, o foco deve ser na ampliação do acesso à fototerapia no SUS e no incentivo à participação do Brasil em estudos clínicos internacionais. A médio prazo, é preciso articular a submissão do ruxolitinibe à Anvisa e à CONITEC, além de promover uma mobilização nacional em defesa do direito de acesso a tratamentos modernos para o vitiligo.
applying sunblocker or lotion to skin affected by vitiligo

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