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Em um movimento para fortalecer o protagonismo indígena na preservação ambiental, recentemente dois jovens Guarani da aldeia Teko’a Anhetenguá (Aldeia da Verdade, Verdadeira), em Porto Alegre, foram preparados para atuar como guias locais em um percurso agroflorestal no território. A iniciativa faz parte do Projeto Ar, Água e Terra, realizado pelo Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (IECAM), com o patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

Responsável pelo treinamento, o biólogo Rafael Martins Paniz explica que o objetivo é capacitar os indígenas para que eles próprios se tornem comunicadores do trabalho que realizam como agentes do Projeto, atuando como colaboradores, compartilhando saberes tradicionais e participando da tomada de decisões, da gestão de recursos naturais e do desenvolvimento de soluções em conjunto com a equipe não indígena.

“A ideia é empoderar os Guarani, tornando-os protagonistas do trabalho que eles vêm desenvolvendo”, afirma Paniz, que há mais de dois anos conta com o apoio dos indígenas da aldeia – principalmente dos agentes Mário e Lázaro, de 29 e 21 anos de idade, respectivamente – na implementação e manejo de sistemas agroflorestais daquele território, com o objetivo de restauração florestal e reconversão produtiva.

O treinamento, com duração de quatro dias e um total de 20 horas de aulas teóricas e sete horas de aulas práticas, ocorreu no final de setembro e início de outubro. A capacitação foi ministrada no viveiro da aldeia, onde Mário e Lázaro aprenderam a reforçar conceitos e a comunicar a importância do trabalho agroflorestal para visitantes.

O caminho agroflorestal da Teko’a Anhetenguá – que está sendo preparado para receber grupos – pode ser percorrido em cerca de três horas e meia, com uma pausa para lanche. O roteiro inclui paradas para conversas e vivências em grupo. A visitação já se mostra promissora: no dia 8 de outubro, Mário e Lázaro guiaram um grupo de alunos da escola indígena local, com o objetivo de reforçar o aprendizado recebido.

Ainda em fase incipiente, a futura atividade de visitação pretende se consolidar como uma ferramenta de valorização cultural e ambiental, permitindo que a própria comunidade compartilhe sua sabedoria sobre o plantio, a restauração florestal e a segurança alimentar. Paniz observa que a abertura da aldeia para visitação de sua agrofloresta não se resumirá a uma “atração turística”. O biólogo enfatiza que as visitas deverão ter um papel fundamental em desmistificar a vida indígena e mostrar a contribuição dos Guarani como protagonistas do trabalho de restauração de florestas em seus territórios, para a preservação do planeta. “A iniciativa tem como objetivo principal valorizar o conhecimento tradicional e o papel dos povos originários (que são povos da floresta) e possuem uma cultura intrinsecamente ligada ao plantio”, destaca. “Esse conhecimento ancestral é aplicado no Projeto, que inclui o plantio de sementes crioulas e diferentes culturas, como bananeiras.”

De acordo com o biólogo do Projeto Ar, Água e Terra, a abertura do caminho agroflorestal da Teko’a Anhetenguá visa também fortalecer a compreensão interna da própria comunidade sobre o trabalho que está sendo realizado ali. “Ao terem a oportunidade de comunicar o que fazem, eles reforçam o entendimento do processo e se tornam multiplicadores do conhecimento”, afirma Paniz. Ele avalia que essa dinâmica é fundamental para as novas gerações e para que o legado do plantio seja transmitido. “A iniciativa tem um forte componente pedagógico para que o aprendizado seja reforçado e compartilhado, garantindo que a sabedoria sobre os ciclos da natureza e o manejo da terra seja preservada. Essa é uma forma de reforçar a identidade e o trabalho do povo Guarani como guardiões da floresta”, ressalta.

 

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